segunda-feira, 22 de julho de 2013

Um protesto carioca cheio de música




Texto, vídeos e fotos: Thomás R. P. de Oliveira





Uma semana após o protesto que parou o Rio de Janeiro e reuniu por volta de 1 milhão de pessoas, um novo encontro foi marcado no dia 27 de junho, às quatro da tarde, na Candelária. Dessa vez, no entanto, a divulgação via internet não foi tão forte. A maior preocupação de todos parecia ser evitar infiltrações direitistas e prevenir que ataques a pessoas com bandeiras ou camisetas de partidos voltassem a acontecer.

Outro motivo para tensão vinha das duras lembranças da violenta repressão policial na quinta-feira da semana passada. Ninguém sabia o que esperar após os últimos confrontos. A presença policial foi pesada. Mais de cinco mil manifestantes dividiram espaço nas ruas com 1400 policiais. 



Após mais de uma hora de concentração, os manifestantes saíram da Candelária em direção à Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro (Fetranspor). Aos gritos de “Fora Cabral” e reivindicando passe livre na cidade e melhorias em saúde e educação, os manifestantes chegaram à Cinelândia, que fica no meio do percurso. Lá, houve uma divisão entre dois grupos que seguiam carros de som diferentes. 

A indecisão fez com que muitos se espalhassem pela praça e aproveitassem para conversar, descansar e até mesmo cantar. O cenário por algum tempo ganhou ares de ocupação e não de passeata. Diferentes grupos se formavam e curiosos circulavam por eles. Feministas, punks, anarquistas, militantes de partidos de esquerda, defensores dos direitos dos homossexuais e funkeiros ocuparam, pacífica e alegremente, o ambiente.



Aos poucos, a manifestação foi se reorganizando e seguiu para a Fetransport. A Alerj, que fica lá em frente e foi palco de um violento confronto no último dia 17, estava completamente isolada por um cordão de policiais com escudos. Aliás, em qualquer direção que se olhasse havia grandes concentrações de PMs. Eles praticamente cercaram a manifestação durante todo o trajeto. 

Da lateral da Alerj, de repente, surgiu um senhor de cabelos brancos em uma moto. Buzinando o tempo todo olhava para os policiais e, rindo, gritava: “Eu assaltava bancos! Vejam só, policiais, que coisa curiosa, eu assaltava bancos!” E novamente buzinava e gargalhava. Os policiais se entreolhavam curiosos e um tanto quanto atônitos. Após mais uns dois minutos de confissões sobre seu improvável passado como assaltante, o senhor percebeu que não receberia voz de prisão e foi embora.

Nenhum confronto aconteceu. Volta e meia, alguma bomba estourava entre os manifestantes ou fogos eram lançados para o ar e era nítido o susto que os mais distraídos levavam, inclusive alguns policiais. Mas as mais de cinco mil pessoas protestaram pacificamente contra o Governador e os empresários do setor de transporte público e, dando a volta na região, retornaram para a Cinelândia. 




A Polícia Militar estava em todas as saídas da praça e a sensação era de que a qualquer momento algo podia acontecer. Não apenas são muito frescas as lembranças da violência da ação dos policiais no último protesto, como estão na mente de todos as recentes mortes no Complexo da Maré, durante operação do Bope. 

Moradores da Maré participaram do protesto e acrescentaram a fundamental mensagem de que, por mais que devamos nos revoltar com a violência policial cometida contra manifestantes no Centro da cidade, é nas favelas que o verdadeiro terror se faz presente. E as recentes mortes não permitiam a ninguém ignorar esse fato. Pessoas se alternaram em megafones protestando contra diferentes alvos, sendo que a polícia era um dos mais constantes. Os PMs apenas assistiam a tudo. 

Com o passar do tempo, muitos manifestantes foram embora e o clima foi ficando mais leve. Um rapaz passou apertando as mãos de policiais e um outro decidiu ir mais longe e abordou uma loira fardada, dizendo que gostaria que trocassem todos os policiais por  mulheres lindas como ela. A PM sorriu constrangida e seus colegas avisaram, também aos risos, que ela era casada. Depois de tudo o que aconteceu nos últimos enfrentamentos entre polícia e manifestantes, essas duas cenas foram no mínimo estranhas e, sem dúvida, não representam o sentimento geral. Mas aconteceram e mostram a complexidade da situação.




A Cinelândia readquiriu um clima de ocupação política e cultural. Grupos de diferentes tamanhos e características se formavam e dissolviam, vendedores de pipoca, balas, cerveja e refrigerante circulavam em busca de clientes, amigos se reencontravam e se abraçavam e eu segui até uma roda com pessoas cantando funk ao som de um berimbau. Assim, me despedi de mais uma noite de protestos ouvindo anarcofunk - que obviamente mistura o ritmo do funk carioca com letras de inspiração anarquista. 

Voltei para casa sem o gosto do gás lacrimogênio na garganta, dessa vez. Enquanto caminhava, fui pensando em como se desenrolará essa tensa relação entre manifestantes e policiais no próximo protesto e sem querer, quando percebi, estava cantarolando os versos dos funkeiros anarquistas: “Começa com as criancinhas/ Bonecas sempre loirinhas/ Bonecas sempre branquinhas”; “Saúde não se vende/ Loucura não se prende / Quem tá doente é o sistema social” e “Hoje será o seu fim, os vagabundos estão aqui”...