Uma semana após o protesto que
parou o Rio de Janeiro e reuniu por volta de 1 milhão de pessoas, um novo
encontro foi marcado no dia 27 de junho, às quatro da tarde, na Candelária. Dessa vez, no entanto, a
divulgação via internet não foi tão forte. A maior preocupação de todos parecia
ser evitar infiltrações direitistas e prevenir que ataques a pessoas com
bandeiras ou camisetas de partidos voltassem a acontecer.
Outro motivo para tensão vinha
das duras lembranças da violenta repressão policial na quinta-feira da semana
passada. Ninguém sabia o que esperar após os últimos confrontos. A presença
policial foi pesada. Mais de cinco mil manifestantes dividiram espaço nas ruas
com 1400 policiais.
Após mais de uma hora de
concentração, os manifestantes saíram da Candelária em direção à
Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro
(Fetranspor). Aos
gritos de “Fora Cabral” e reivindicando passe livre na cidade e melhorias em
saúde e educação, os manifestantes chegaram à Cinelândia, que fica no meio do
percurso. Lá, houve uma divisão entre dois grupos que seguiam carros de som diferentes.
A indecisão fez
com que muitos se espalhassem pela praça e aproveitassem para conversar, descansar
e até mesmo cantar. O cenário por algum tempo ganhou ares de ocupação e não de
passeata. Diferentes grupos se formavam e curiosos circulavam por eles.
Feministas, punks, anarquistas, militantes de partidos de esquerda, defensores
dos direitos dos homossexuais e funkeiros ocuparam, pacífica e alegremente, o
ambiente.
Aos poucos, a
manifestação foi se reorganizando e seguiu para a Fetransport. A Alerj, que
fica lá em frente e foi palco de um violento confronto no último dia 17, estava
completamente isolada por um cordão de policiais com escudos. Aliás, em
qualquer direção que se olhasse havia grandes concentrações de PMs. Eles
praticamente cercaram a manifestação durante todo o trajeto.
Da lateral da
Alerj, de repente, surgiu um senhor de cabelos brancos em uma moto. Buzinando o
tempo todo olhava para os policiais e, rindo, gritava: “Eu assaltava bancos!
Vejam só, policiais, que coisa curiosa, eu assaltava bancos!” E novamente
buzinava e gargalhava. Os policiais se entreolhavam curiosos e um tanto quanto
atônitos. Após mais uns dois minutos de confissões sobre seu improvável passado
como assaltante, o senhor percebeu que não receberia voz de prisão e foi
embora.
Nenhum confronto
aconteceu. Volta e meia, alguma bomba estourava entre os manifestantes ou fogos
eram lançados para o ar e era nítido o susto que os mais distraídos levavam,
inclusive alguns policiais. Mas as mais de cinco mil pessoas protestaram
pacificamente contra o Governador e os empresários do setor de transporte
público e, dando a volta na região, retornaram para a Cinelândia.
A Polícia Militar
estava em todas as saídas da praça e a sensação era de que a qualquer momento
algo podia acontecer. Não apenas são muito frescas as lembranças da violência
da ação dos policiais no último protesto, como estão na mente de todos as recentes
mortes no Complexo da Maré, durante operação do Bope.
Moradores da Maré
participaram do protesto e acrescentaram a fundamental mensagem de que, por
mais que devamos nos revoltar com a violência policial cometida contra
manifestantes no Centro da cidade, é nas favelas que o verdadeiro terror se faz
presente. E as recentes mortes não permitiam a ninguém ignorar esse fato. Pessoas
se alternaram em megafones protestando contra diferentes alvos, sendo que a
polícia era um dos mais constantes. Os PMs apenas assistiam a tudo.
Com o passar do
tempo, muitos manifestantes foram embora e o clima foi ficando mais leve. Um
rapaz passou apertando as mãos de policiais e um outro decidiu ir mais longe e abordou
uma loira fardada, dizendo que gostaria que trocassem todos os policiais
por mulheres lindas como ela. A PM
sorriu constrangida e seus colegas avisaram, também aos risos, que ela era
casada. Depois de tudo o que aconteceu nos últimos enfrentamentos entre polícia
e manifestantes, essas duas cenas foram no mínimo estranhas e, sem dúvida, não
representam o sentimento geral. Mas aconteceram e mostram a complexidade da
situação.
A Cinelândia
readquiriu um clima de ocupação política e cultural. Grupos de diferentes
tamanhos e características se formavam e dissolviam, vendedores de pipoca,
balas, cerveja e refrigerante circulavam em busca de clientes, amigos se
reencontravam e se abraçavam e eu segui até uma roda com pessoas cantando funk
ao som de um berimbau. Assim, me despedi de mais uma noite de protestos ouvindo
anarcofunk - que obviamente mistura o ritmo do funk carioca com letras de
inspiração anarquista.
Voltei para casa
sem o gosto do gás lacrimogênio na garganta, dessa vez. Enquanto caminhava, fui
pensando em como se desenrolará essa tensa relação entre manifestantes e
policiais no próximo protesto e sem querer, quando percebi, estava cantarolando
os versos dos funkeiros anarquistas: “Começa
com as criancinhas/ Bonecas sempre loirinhas/ Bonecas sempre branquinhas”; “Saúde não se vende/ Loucura não se prende
/ Quem tá doente é o sistema social” e
“Hoje será o seu fim, os vagabundos estão aqui”...









