domingo, 21 de julho de 2013

Tropa de Choque, Cavalaria e Caveirão X Manifestantes Nas Ruas do Rio de Janeiro



Texto e Fotos: Thomás R. P. de Oliveira*




Já confirmado como um dos maiores protestos da história da cidade, esse foi também um dos mais violentos, complexos e caóticos enfrentamentos entre sociedade civil e polícia no Rio de Janeiro. Avenida Presidente Vargas e Rio Branco, Cidade Nova, Candelária, Cinelândia, Alerj e Lapa foram alguns dos principais pontos da cidade tomados por manifestantes, Tropa de Choque, Cavalaria e até mesmo pelo famoso e odiado “Caveirão”, o veículo blindado da polícia militar. 

Entre 300 mil e um milhão de pessoas - isso mesmo, ninguém sabe o real número e os especialistas oscilam entre os dois valores - se uniram para comemorar, com muitas ressalvas, o cancelamento do aumento das tarifas de transporte urbano e para levantar uma nova pauta de reivindicações na última quinta-feira, dia 20 de junho.
Vinte centavos era uma pechincha, mas o Estado não sabia. Essa é a impressão deixada pelo rumo dos acontecimentos. A lógica se inverteu. Se no início dos protestos vimos pessoas na mídia ridicularizando manifestantes que paravam a cidade por causa desse valor no aumento da tarifa do ônibus, agora é o poder público que deve começar a se arrepender por ter demorado tanto a atender os clamores da sociedade. Atualmente as reivindicações já ganharam uma dimensão muito maior. E, para complicar, muitos manifestantes ainda não se consideram vitoriosos nem mesmo em relação às passagens. Reclamam que, no fim, quem vai pagar será o povo de qualquer maneira, pois o cancelamento do aumento de 20 centavos virá por meio de subsídios dados às empresas de transporte e não pela diminuição do lucro dos empresários do setor.

A manifestação saiu novamente da Candelária, mas dessa vez não virou na Avenida Rio Branco, seguindo direto pela Presidente Vargas em direção à prefeitura. Tudo acontecia em clima de paz e descontração e era considerável o número de famílias, idosos e pré-adolescentes participando. Era um clima de Copa do Mundo um tanto quanto estranho.

O primeiro sinal de tensão veio de enfrentamentos entre manifestantes e membros de partidos que levavam suas bandeiras e andavam em blocos. O movimento nasceu apartidário, mas não se mostrava antipartidário. Dessa vez, no entanto, aconteceu algo diferente e os grupos ligados a partidos chegaram a ser agredidos. Isso somado ao tal clima de Copa, com pessoas vestidas de verde e amarelo ou carregando bandeiras do Brasil, traz preocupações. Os interesses envolvidos são muitos e não é difícil perceber, após o susto inicial, a direita tentando direcionar os protestos, tanto na grande mídia quanto nas ruas. 

Mas um enfrentamento maior, dessa vez com a polícia, estava prestes a acontecer e a coisa ficou feia nos arredores da prefeitura. Ao chegar lá, as pessoas encontraram os policiais que cercavam o prédio. Logo à frente, a cavalaria e na lateral o caveirão. Após tantas manifestações em tão pouco tempo, já foi desenvolvido uma animosidade entre policiais e muitos dos que protestam. Aqueles cavaleiros armados e enfileirados de frente para o mar de manifestantes era a mais perfeita expressão da tensão que precede o tumulto. Acredito que todos os que estiveram nas manifestações anteriores sabiam que a pergunta não era se haveria enfrentamento, mas quando. 




E a resposta veio muito rapidamente. Jogando fogos de artifício na direção da polícia, alguns poucos manifestantes assustavam os cavalos e despertavam a ira dos policiais. Logo as primeiras bombas foram atiradas, o gás se espalhou, a cavalaria foi para cima de quem estava por perto. Na sequência, o caveirão entrou em cena, avançando e dando cobertura a policiais que atiravam mais bombas. As pessoas fugiram voltando pela avenida ou subindo pelo viaduto em frente enquanto uma minoria ficou resistindo, jogando pedras e fogos contra os policiais. 

Mas o terreno amplo ao redor da prefeitura favorecia a polícia, era muito mais fácil dispersar a multidão naquele campo aberto com pouquíssimos lugares para se abrigar de tiros e bombas, do que havia sido nas cercanias da Alerj. 




Em seguida, a polícia rumou pela Presidente Vargas contra pessoas que ainda estavam em um ritmo festivo e nem sabiam o que havia acontecido na prefeitura. Acompanhei a cavalaria com outros jornalistas e vimos um cenário de destruição sem precedentes. Placas arrancadas, postes de metal derrubados, pontos de ônibus estilhaçados. O chamado Terreirão do Samba estava em chamas, alguns dos manifestantes atacados pela polícia, após fugirem, invadiram o local e queimaram barracas. Depois dos bombeiros agirem, a passagem foi liberada e seguimos em frente. 




Dois jovens foram abordados pela polícia por estarem carregando um líquido. Eles explicaram que era apenas tinta guache e água para pintarem os rostos de verde e amarelo, mas mesmo assim foram deitados de bruços com armas apontadas para as cabeças. Um grupo de pessoas começou a tentar dialogar com os policiais para que os soltassem, mas os ânimos estavam muito exaltados e um dos PMs, que inclusive estava sem identificação no uniforme, começou a gritar para todos que estivessem com máscaras que as tirassem ou seriam presos. Olhamos ao redor e ninguém estava mascarado, havia somente algumas máscaras contra gás penduradas nos pescoços de alguns. Um senhor com sotaque nordestino sorriu e disse que “o coronel deve estar usando uma metáfora quando nos pede para tirarmos nossas máscaras sociais”, provocando o riso de quem ouviu. Após muita insistência, desistiram de prender as duas pessoas por porte de tinta guache. Todos começaram então a gritar: “o povo unido jamais será vencido!” Os policiais caminharam até a outra calçada, um deles se virou e simplesmente arremessou uma bomba em cima da gente.



Esse tipo de atitude, jogar uma granada de gás em pessoas que não fizeram nada além de comemorar uma prisão injusta que deixou de ser feita, foi comum ao longo do resto da noite. Fui caminhando até a Cinelândia e ao chegar encontrei pessoas sentadas pelas escadarias do Theatro Municipal e nos bancos da praça. Mesmo assim, o caveirão passou diversas vezes soltando gás lacrimogêneo e, como se não bastasse, um policial desceu do veículo e arremessou bombas nas pessoas. A revolta entre os manifestantes voltou a crescer e após uma discussão com policiais, alguém jogou pedras neles. Novos tiros e bombas nos expulsaram de lá e nos conduziram ao único caminho possível que levava ao famoso bairro boêmio da Lapa. 

Lá, me vi junto com muitos outros em uma ilha cercada de policiais cheios de agressividade por todos os lados. Quem tentava sair por qualquer rua era alvejado por balas de borracha e quem ficava parado era vítima das bombas de gás. Não era possível voltar à Cinelândia e nem pegar as ruas que levavam ao outro lado – Tijuca e Estácio. 

Esperando as coisas se acalmarem e tentando sair da linha de fogo, muitos manifestantes (que a esta altura só manifestavam cansaço e vontade de conseguir sair daquele pesadelo) ficaram em um posto de gasolina. Mas a polícia passava periodicamente jogando bombas de gás. 



Tossindo e vomitando, as pessoas não tinham pra onde ir, já que todas as ruas estavam cercadas. Uma garota falou que não aguentava mais e que iria embora. Foi caminhando sozinha pela calçada e desapareceu. Voltou em poucos minutos com a barriga em carne viva após levar um tiro de bala de borracha à queima-roupa. Demorou ainda um bom tempo até que eu decidisse me arriscar e sair. Com muitos desvios e alguns perrengues, consegui escapar da Lapa. 

Após a tomada da Alerj nos últimos protestos e a fuga da Tropa de Choque, eu imaginava que a repressão policial seria pesada, mas mesmo assim eu fiquei impressionado com o grau de violência contra pessoas que não estavam fazendo nada de errado. Presenciei um crescente sentimento de injustiça, em muitos manifestantes, que logo se desenvolveu para o ódio. Ouvi pessoas afirmarem que sempre foram contra o vandalismo e a violência, mas que estavam mudando de ideia após presenciarem e sofrerem abusos policiais nesta noite de protestos.




O Estado está assustado e agindo de forma bruta e inconsequente por não saber lidar com uma nova situação imprevista. O Brasil mudou e se demorar muito para o poder público perceber isso, as coisas tenderão a ficar feias de verdade. Quando os protestos transpuseram a barreira do mundo online e entraram na realidade concreta das ruas, a surpresa foi generalizada. Políticos, jornalistas, analistas, poucos davam o crédito que esse movimento crescente merecia. Eles estavam analisando a situação com um olhar ultrapassado, pois na verdade esse desprezo que demonstravam vinha da falta de ferramentas intelectuais e políticas para ler com maior precisão a situação. 
 
É como se houvesse uma luta pela possibilidade se reinventar a democracia, torná-la participativa de verdade. Mas os passos dos manifestantes ainda percorrem um terreno muito instável e todos parecem tatear o caminho com insegurança. E é realmente preciso cuidado nessa caminhada, pois os desvios possíveis são muitos e os reacionários estão por toda parte apenas aguardando a oportunidade para agir. 

Se na quinta-feira tivemos o maior dos protestos, na segunda-feira seguinte, dia 24 de junho, aconteceu o menor deles. Após as preocupantes agressões a membros de partidos e outros indícios de infiltração direitista, os grupos ligados à esquerda não aderiram a um protesto marcado para Candelária nessa segunda. Como resultado, o Centro da cidade assistiu a uma passeata bem pequena. O recuo estratégico dos movimentos da esquerda foi importante para não permitir o fortalecimento de grupos fascistas e para se repensar a agenda de reinvindicações, métodos e postura a partir de agora. Mas isso não pode se tornar uma retirada definitiva, ou se correrá o risco de deixar o espaço livre para a ação de pessoas com intenções nada louváveis. 

As ruas das grandes cidades estão se tornando espaço público no sentido mais completo e democrático da expressão. Lá se faz política de verdade. Mas lá também se foge de bombas de gás e de balas de borracha e lá se enfrenta pessoas que não desejam o fortalecimento da democracia e nem da luta por justiça e igualdade social.




*uma versão deste texto foi publicada originalmente no site da revista Vice.