Texto e Fotos: Thomás R. P. de Oliveira*
Já confirmado como um dos maiores
protestos da história da cidade, esse foi também um dos mais violentos,
complexos e caóticos enfrentamentos entre sociedade civil e polícia no Rio de
Janeiro. Avenida Presidente Vargas e Rio Branco, Cidade Nova, Candelária,
Cinelândia, Alerj e Lapa foram alguns dos principais pontos da cidade tomados
por manifestantes, Tropa de Choque, Cavalaria e até mesmo pelo famoso e odiado “Caveirão”,
o veículo blindado da polícia militar.
Entre 300 mil e um milhão de
pessoas - isso mesmo, ninguém sabe o real número e os especialistas oscilam
entre os dois valores - se uniram para comemorar, com muitas ressalvas, o
cancelamento do aumento das tarifas de transporte urbano e para levantar uma
nova pauta de reivindicações na última quinta-feira, dia 20 de junho.
Vinte centavos era uma pechincha,
mas o Estado não sabia. Essa é a impressão deixada pelo rumo dos
acontecimentos. A lógica se inverteu. Se no início dos protestos vimos pessoas
na mídia ridicularizando manifestantes que paravam a cidade por causa desse
valor no aumento da tarifa do ônibus, agora é o poder público que deve começar
a se arrepender por ter demorado tanto a atender os clamores da sociedade. Atualmente
as reivindicações já ganharam uma dimensão muito maior. E, para complicar,
muitos manifestantes ainda não se consideram vitoriosos nem mesmo em relação às
passagens. Reclamam que, no fim, quem vai pagar será o povo de qualquer
maneira, pois o cancelamento do aumento de 20 centavos virá por meio de subsídios
dados às empresas de transporte e não pela diminuição do lucro dos empresários
do setor.
A manifestação saiu novamente da
Candelária, mas dessa vez não virou na Avenida Rio Branco, seguindo direto pela
Presidente Vargas em direção à prefeitura. Tudo acontecia em clima de paz e
descontração e era considerável o número de famílias, idosos e pré-adolescentes
participando. Era um clima de Copa do Mundo um tanto quanto estranho.
O primeiro sinal de tensão veio
de enfrentamentos entre manifestantes e membros de partidos que levavam suas
bandeiras e andavam em blocos. O movimento nasceu apartidário, mas não se
mostrava antipartidário. Dessa vez, no entanto, aconteceu algo diferente e os
grupos ligados a partidos chegaram a ser agredidos. Isso somado ao tal clima de
Copa, com pessoas vestidas de verde e amarelo ou carregando bandeiras do
Brasil, traz preocupações. Os interesses envolvidos são muitos e não é difícil
perceber, após o susto inicial, a direita tentando direcionar os protestos,
tanto na grande mídia quanto nas ruas.
Mas um enfrentamento maior, dessa
vez com a polícia, estava prestes a acontecer e a coisa ficou feia nos
arredores da prefeitura. Ao chegar lá, as pessoas encontraram os policiais que cercavam
o prédio. Logo à frente, a cavalaria e na lateral o caveirão. Após tantas
manifestações em tão pouco tempo, já foi desenvolvido uma animosidade entre
policiais e muitos dos que protestam. Aqueles cavaleiros armados e enfileirados
de frente para o mar de manifestantes era a mais perfeita expressão da tensão
que precede o tumulto. Acredito que todos os que estiveram nas manifestações
anteriores sabiam que a pergunta não era se haveria enfrentamento, mas quando.
E a resposta veio muito
rapidamente. Jogando fogos de artifício na direção da polícia, alguns poucos
manifestantes assustavam os cavalos e despertavam a ira dos policiais. Logo as
primeiras bombas foram atiradas, o gás se espalhou, a cavalaria foi para cima
de quem estava por perto. Na sequência, o caveirão entrou em cena, avançando e
dando cobertura a policiais que atiravam mais bombas. As pessoas fugiram
voltando pela avenida ou subindo pelo viaduto em frente enquanto uma minoria ficou
resistindo, jogando pedras e fogos contra os policiais.
Mas o terreno amplo ao redor da
prefeitura favorecia a polícia, era muito mais fácil dispersar a multidão
naquele campo aberto com pouquíssimos lugares para se abrigar de tiros e
bombas, do que havia sido nas cercanias da Alerj.
Em seguida, a polícia rumou pela
Presidente Vargas contra pessoas que ainda estavam em um ritmo festivo e nem
sabiam o que havia acontecido na prefeitura. Acompanhei a cavalaria com outros
jornalistas e vimos um cenário de destruição sem precedentes. Placas
arrancadas, postes de metal derrubados, pontos de ônibus estilhaçados. O
chamado Terreirão do Samba estava em chamas, alguns dos manifestantes atacados
pela polícia, após fugirem, invadiram o local e queimaram barracas. Depois dos
bombeiros agirem, a passagem foi liberada e seguimos em frente.
Dois jovens foram abordados pela
polícia por estarem carregando um líquido. Eles explicaram que era apenas tinta
guache e água para pintarem os rostos de verde e amarelo, mas mesmo assim foram
deitados de bruços com armas apontadas para as cabeças. Um grupo de pessoas
começou a tentar dialogar com os policiais para que os soltassem, mas os ânimos
estavam muito exaltados e um dos PMs, que inclusive estava sem identificação no
uniforme, começou a gritar para todos que estivessem com máscaras que as
tirassem ou seriam presos. Olhamos ao redor e ninguém estava mascarado, havia somente
algumas máscaras contra gás penduradas nos pescoços de alguns. Um senhor com
sotaque nordestino sorriu e disse que “o coronel deve estar usando uma metáfora
quando nos pede para tirarmos nossas máscaras sociais”, provocando o riso de
quem ouviu. Após muita insistência, desistiram de prender as duas pessoas por
porte de tinta guache. Todos começaram então a gritar: “o povo unido jamais
será vencido!” Os policiais caminharam até a outra calçada, um deles se virou e
simplesmente arremessou uma bomba em cima da gente.
Esse tipo de atitude, jogar uma
granada de gás em pessoas que não fizeram nada além de comemorar uma prisão
injusta que deixou de ser feita, foi comum ao longo do resto da noite. Fui
caminhando até a Cinelândia e ao chegar encontrei pessoas sentadas pelas
escadarias do Theatro Municipal e nos bancos da praça. Mesmo assim, o caveirão
passou diversas vezes soltando gás lacrimogêneo e, como se não bastasse, um
policial desceu do veículo e arremessou bombas nas pessoas. A revolta entre os
manifestantes voltou a crescer e após uma discussão com policiais, alguém jogou
pedras neles. Novos tiros e bombas nos expulsaram de lá e nos conduziram ao
único caminho possível que levava ao famoso bairro boêmio da Lapa.
Lá, me vi junto com muitos outros
em uma ilha cercada de policiais cheios de agressividade por todos os lados.
Quem tentava sair por qualquer rua era alvejado por balas de borracha e quem
ficava parado era vítima das bombas de gás. Não era possível voltar à
Cinelândia e nem pegar as ruas que levavam ao outro lado – Tijuca e Estácio.
Esperando as coisas se acalmarem
e tentando sair da linha de fogo, muitos manifestantes (que a esta altura só
manifestavam cansaço e vontade de conseguir sair daquele pesadelo) ficaram em
um posto de gasolina. Mas a polícia passava periodicamente jogando bombas de
gás.
Tossindo e vomitando, as pessoas
não tinham pra onde ir, já que todas as ruas estavam cercadas. Uma garota falou
que não aguentava mais e que iria embora. Foi caminhando sozinha pela calçada e
desapareceu. Voltou em poucos minutos com a barriga em carne viva após levar um
tiro de bala de borracha à queima-roupa. Demorou ainda um bom tempo até que eu
decidisse me arriscar e sair. Com muitos desvios e alguns perrengues, consegui
escapar da Lapa.
Após a tomada da Alerj nos
últimos protestos e a fuga da Tropa de Choque, eu imaginava que a repressão
policial seria pesada, mas mesmo assim eu fiquei impressionado com o grau de
violência contra pessoas que não estavam fazendo nada de errado. Presenciei um
crescente sentimento de injustiça, em muitos manifestantes, que logo se
desenvolveu para o ódio. Ouvi pessoas afirmarem que sempre foram contra o
vandalismo e a violência, mas que estavam mudando de ideia após presenciarem e
sofrerem abusos policiais nesta noite de protestos.
O Estado está assustado e agindo
de forma bruta e inconsequente por não saber lidar com uma nova situação
imprevista. O Brasil mudou e se demorar muito para o poder público perceber
isso, as coisas tenderão a ficar feias de verdade. Quando os protestos
transpuseram a barreira do mundo online e entraram na realidade concreta das
ruas, a surpresa foi generalizada. Políticos, jornalistas, analistas, poucos
davam o crédito que esse movimento crescente merecia. Eles estavam analisando a
situação com um olhar ultrapassado, pois na verdade esse desprezo que
demonstravam vinha da falta de ferramentas intelectuais e políticas para ler
com maior precisão a situação.
É como se houvesse uma luta pela
possibilidade se reinventar a democracia, torná-la participativa de verdade.
Mas os passos dos manifestantes ainda percorrem um terreno muito instável e
todos parecem tatear o caminho com insegurança. E é realmente preciso cuidado
nessa caminhada, pois os desvios possíveis são muitos e os reacionários estão
por toda parte apenas aguardando a oportunidade para agir.
Se na quinta-feira tivemos o
maior dos protestos, na segunda-feira seguinte, dia 24 de junho, aconteceu o
menor deles. Após as preocupantes agressões a membros de partidos e outros
indícios de infiltração direitista, os grupos ligados à esquerda não aderiram a
um protesto marcado para Candelária nessa segunda. Como resultado, o Centro da
cidade assistiu a uma passeata bem pequena. O recuo estratégico dos movimentos
da esquerda foi importante para não permitir o fortalecimento de grupos
fascistas e para se repensar a agenda de reinvindicações, métodos e postura a
partir de agora. Mas isso não pode se tornar uma retirada definitiva, ou se correrá
o risco de deixar o espaço livre para a ação de pessoas com intenções nada
louváveis.
As ruas das grandes cidades estão
se tornando espaço público no sentido mais completo e democrático da expressão.
Lá se faz política de verdade. Mas lá também se foge de bombas de gás e de
balas de borracha e lá se enfrenta pessoas que não desejam o fortalecimento da
democracia e nem da luta por justiça e igualdade social.
*uma versão deste texto foi publicada originalmente no site da revista Vice.










