Texto e fotos: Thomás R. P. de Oliveira
contato: fotos.trpo@gmail.com
Cerca de 100 mil pessoas ocuparam
o Centro do Rio para protestar no dia 17 de junho. A Avenida Rio Branco se tornou uma
ruazinha apertada, a Cinelândia parecia uma minúscula praça do interior, tudo
se apequenava diante daquela multidão. A Candelária, que havia sido o ponto de
concentração para o início de todas as passeatas, já transbordava de gente no
horário marcado para o evento nas redes sociais, 17 horas, e a Avenida
Presidente Vargas começava também a ser tomada.
Desde o início, dava para sentir os
acontecimentos seriam mais fortes. Não era só uma questão de número de pessoas,
tudo era mais intenso. Inúmeros apartamentos piscavam suas luzes como forma de
apoio à passeata e ganhavam, em retribuição, aplausos de quem protestava. Novos
grupos se uniram à enorme massa: advogados, guarda-vidas, estudantes de medicina.
Todos com suas faixas, cartazes e reivindicações.
O coro que mais era repetido, a
exemplo do que aconteceu em São Paulo, era “Sem violência! Sem violência!” E
mais uma vez, até os protestos chegarem à Cinelândia, em frente ao Theatro
Municipal, tudo parecia indicar que o pacifismo iria dominar as ações do dia.
Mas também, mais uma vez, não foi assim que as coisas continuaram a fluir.
Parte da manifestação seguiu
direto para a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, a Alerj, e
logo essa se tornou a direção de todos. No último protesto, a ida à Alerj foi
um ato espontâneo que surpreendeu o comando da polícia que, então, a partir daí
agindo no improviso, acabou permitindo que os manifestantes tomassem as escadarias
e subissem em estátuas e postes do prédio histórico. Desta vez, a polícia
estava preparada para a chegada dos manifestantes e formou um bloqueio para
impedir que mais uma vez o local fosse dominado pelos que protestavam. Mas a
polícia não estava preparada para um novo problema: nesta noite, eram 100 mil
pessoas.
A multidão deu de cara com os
escudos negros nas escadarias e, após alguns segundos de crescente tensão, alguns
manifestantes que estavam à frente tentaram forçar a passagem. Fogos foram
lançados. Os policiais dispararam então as primeiras bombas de gás.
Imediatamente, tiveram como resposta pedras, paus e fogos de artifício arremessados
pelos que tentavam passar. Mesmo com a maior parte dos manifestantes não
apoiando que se fosse pra cima da polícia, o número dos que foram era muito
maior do que em qualquer outra noite de protestos. E foi neste momento que aconteceu
algo inédito nas manifestações contra o aumento das passagens, algo que provavelmente
não era previsto nem pela polícia nem pelos manifestantes: o temido Choque
titubeou, deu dois ou três passos tímidos para trás. Não foi necessário mais do
que isso para que os jovens constatassem que o que estava acontecendo era
realmente diferente. Gritando, a onda de pessoas avançou e os PMs recuaram.
Continuaram atirando as bombas de gás, o ar se tornou pesado e venenoso como
das outras vezes, mas a novidade é que fizeram isso enquanto andavam para trás.
A polícia foi expulsa das
escadarias e, novamente, a Alerj foi tomada por quem protestava. Alguns
policiais se protegeram ficando dentro da Assembleia, outros fugiram para trás
da construção. Lá, se reorganizaram e voltaram com bombas e tiros de balas de
borracha. Muitas pessoas correram, mas os que não recuaram passaram a gritar
para que todos se reagrupassem. E isso foi feito. Novamente avançaram contra a
polícia e a expulsaram. Esse processo aconteceu diversas vezes, os policiais
voltavam, as bombas explodiam, a fumaça se espalhava, eram ouvidos os tiros com
bala de borracha, muitos corriam, se abrigavam por um tempo e logo voltavam.
Assim, não só os ataques da
polícia não conseguiram desocupar a Alerj, como despertaram nos manifestantes
mais agressividade do que nunca. As pessoas que fugiram das bombas, aos poucos,
se reagruparam em diversos focos espalhados pelas ruas da região. Para onde se
olhasse havia lixeiras queimando, bancos depredados, barricadas improvisadas e
em chamas bloqueando parcialmente as ruas. O que era um protesto pacífico
rumando pelas ruas aos gritos de “não violência” havia se convertido em um
cenário de guerra. Mas é necessário registrar que a maioria discordava de todo
e qualquer ato de depredação e muitas vezes era possível assistir a
manifestantes gritando pedindo para que outros não quebrassem algo.
Uma rua de pedestres, a Erasmo
Braga, foi de repente invadida pela fumaça das bombas. Pessoas que comiam e
bebiam após o dia de trabalho se viram cercadas por aquela mudança surreal na
paisagem, pessoas correndo em desespero dos tiros da polícia, vomitando por
causa do gás, uma mãe chorando ao celular por não conseguir achar o filho que
estava protestando com ela mas que se separou quando a polícia foi para cima
deles.
Na rua da Assembleia, a situação
foi ainda pior. A polícia apareceu por pequenas ruas transversais jogando
bombas, mas decidiu não entrar na rua, barrada por manifestantes. Alguns
começaram então a quebrar vidros, portas de bancos, placas, etc. Uma moça
assustada chorava pedindo para que um porteiro a deixasse entrar na portaria do
prédio para se abrigar, mas ele respondeu que ali não era lugar de baderneiro.
A amiga da jovem afirmou que não havia baderneiro algum, que elas estavam
lutando pelos direitos dele também, que são professoras e trabalham 40 horas
semanais para ganhar pouquíssimo e que é por isso que a educação no Brasil
formava pessoas como ele. O porteiro manteve o olhar impassível e a garota do
lado de fora entregue às bombas e às balas de borracha. Chorando de raiva, a
professora virou as costas conduzindo sua colega para outro lugar.
Apesar do medo e da confusão, os
manifestantes estavam o tempo todo preocupados com o bem-estar uns dos
outros. Em nenhum momento constatei um
clima de “cada um por si”. Muito pelo contrário, se alguém caia durante a fuga,
logo outros dois ou três desconhecidos o agarravam pelos braços e o levantavam,
mesmo que isso aumentasse o risco de serem atingidos pelas balas de borracha.
Quando eu comecei a ter uma crise de tosse devido ao gás das bombas, senti uma
mão tocar meu ombro e ao me virar recebi de alguém um pano com vinagre para
colocar na boca e nariz, aliviando os efeitos intoxicantes. E isso era comum,
as pessoas distribuíam vinagre, se ajudavam o tempo todo e assim o desespero
potencialmente mortal em uma multidão desse tamanho nunca se instalou
completamente.
Saíram do computador e foram às ruas.
As redes sociais, que em um
primeiro olhar parecem funcionar como mero palco para o culto ao ego e ao
banal, estão servindo para ressoar as vozes inconformadas. Desenvolve-se assim a
percepção de que não se está sozinho.
Aqueles protestos online, que pareciam que nunca iriam sair do Facebook,
saíram, foram pras ruas e semana após semana atraíram a admiração de mais e
mais pessoas até se tornarem o que vimos na última noite.
Há algumas décadas, a grande
mídia podia passar semanas dizendo que a multidão das Diretas Já estava ocupando São Paulo como forma de comemorar o
aniversário da cidade. Agora isso já não é mais possível. Toda versão oficial
divulgada por alguns canais de televisão, jornais impressos e revistas semanais
é logo colocada em cheque por imagens, textos e vídeos postados na internet. O
descompasso entre a grande mídia e os anseios da população fica cada vez mais
evidente. Em São Paulo, foi necessário que a polícia acertasse tiros nos olhos de
dois repórteres, talvez cegando um deles, para que a violência policial fosse
enxergada pela maior parte da imprensa. Até então, na versão dos maiores
jornais, manifestantes eram vândalos e violência policial era o mal necessário
para a proteção do cidadão de bem.
Também fica nítida a falta de
compreensão do poder público em relação ao fenômeno que está acontecendo no Rio
de Janeiro e no país como um todo. Parece que a cultura da repressão está tão
arraigada na mente do Estado, que é inadmissível resolver as coisas de outra
forma que não seja à força. Hoje, o despreparo do Estado ficou muito claro. A
estratégia da Tropa de Choque era a de sempre, atirar e passar por cima do que
estivesse em seu caminho. Mas a situação inviabilizava isso. Não estavam mais
diante de três mil pessoas assustadas com o risco real das bombas de gás e
balas de borracha, mas sim diante de uma multidão que parecia descobrir sua
própria força enquanto os eventos da noite aconteciam.
O Rio de Janeiro anoiteceu pegando
fogo. E os manifestantes, em sua maioria, concordam que a depredação da cidade
é lamentável e por isso gritaram tanto por não-violência. A história recente
mostrou o grande erro que é cometido pelos governantes que pensam que são
onipotentes e que a violência e a repressão resolvem qualquer crise. Estamos em
um momento decisivo e muito delicado. Quem esteve na manifestação dessa
segunda-feira sentiu que as coisas estão definitivamente diferentes. Resta
saber como o Estado reagirá a isso. Se está sendo falado em ao menos duas
pessoas atingidas por tiros com balas de verdade. Isso é muito grave. O Estado
precisa se posicionar publica e claramente em relação ao fato de algum policial
ter sacado e atirado com arma de verdade.
Tudo começou com vinte centavos
de aumento na tarifa de um serviço público visto pela população como sendo de
baixa qualidade. Agora, as reivindicações são muitas outras. As bandeiras são
múltiplas e as exigências cada vez mais complexas e consistentes. A cada
manifestação o número de adeptos cresce. Nessa última, 100 mil foram às ruas.
Quantos irão à próxima? Como o governo vai lidar com isso? Como a polícia será
instruída a agir? Essas são perguntas importantes que, inevitavelmente, logo
terão respostas concretas. E essas respostas poderão determinar os rumos da
política na cidade e no país.
*uma versão deste texto foi publicada originalmente no site da revista Vice.








