quarta-feira, 24 de julho de 2013

O “welcome drink” oferecido na recepção ao Papa: coquetel molotov



Texto, fotos e vídeos: Thomás R. P. O.
fotos.trpo@gmail.com



Na segunda-feira, 22 de julho, o Papa argentino teve uma recepção bem brasileira. Seu motorista se perdeu no trânsito e acabou preso em um enorme congestionamento nas ruas do Centro da cidade. Enquanto isso, não muito distante, no Largo do Machado, uma multidão começava a se formar. Entre os manifestantes, partidos de esquerda, movimentos estudantis, feministas e uma forte participação de grupos que lutam contra a homofobia. O clima seria leve e tranquilo nesse final de tarde se não fosse a circulação de muitos P2 na área. Um, inclusive, ameaçou tomar o celular de uma garota que o estava filmando.

Quando as pessoas começaram a andar em direção ao Palácio Guanabara, local da recepção oficial do líder da igreja católica, a presença da cavalaria no caminho aumentou a tensão. Neste momento, algumas pessoas com bandeiras de partidos resolveram que ficariam no Largo do Machado e foram deixadas para trás aos gritos de “pelegos”.



Na rua Pinheiro Machado, poucos metros atrás de uma cerca de metal colocada no local, um enorme paredão humano formado por uma multidão fardada impedia qualquer possibilidade de maior aproximação da sede do Governo do Estado. 

A já tradicional queima do boneco do Sérgio Cabral, dessa vez amarrado a um poste, foi aplaudida. E tudo rolou tranquilamente até a saída do Papa de helicóptero. Algumas grades que separavam as pessoas dos policiais foram jogadas ao chão. Uma clareira se abriu e manifestantes com os braços abertos pediam calma. Quase imediatamente, por cima da cabeça deles, voou um coquetel molotov que explodiu em frente da polícia. Em questão de instantes, bombas de efeito moral foram lançadas contra a multidão e novos coquetéis caíram sobre os PMs. (VÍDEO)

O “caminhão pipa” da polícia saiu jogando jatos de água para apagar as chamas e carros cheios de policiais, seguidos pela tropa de choque, avançaram na direção dos manifestantes que fugiam. Rapidamente, um policial elegeu um culpado, o acertou com um tiro de pistola de choque e continuou eletrocutando o homem caído no chão. Vários policiais carregaram o manifestante desacordado e ao mesmo tempo tentavam afastar a imprensa. O fotógrafo da France Presse, Yasuyoshi Chiba, empurrado, ergueu os braços mostrando a câmera e foi agredido violentamente na cabeça com um cassetete.



Ajoelhado na calçada, o fotógrafo que sangrava abundantemente foi atendido por manifestantes vestidos com jalecos brancos e foi conduzido a um hospital. Enquanto isso, o homem eletrocutado acordava e recebia voz de prisão sob a acusação de ter arremessado o primeiro molotov. Dois integrantes da Mídia Ninja também foram presos (segundo a polícia, por incitarem a violência). Os manifestantes decidiram seguir para a 9ºDP, no Catete, para exigir a libertação dos presos.

Após a manifestação, cheguei em casa e enquanto baixava as fotos no computador, liguei a TV para buscar qualquer informação a que eu não tivesse tido acesso, justamente por estar no meio dos acontecimentos. Para a minha surpresa - ok nem tanta surpresa assim – uma grande emissora afirmava que “um fotógrafo de uma agência internacional havia sido ferido na cabeça por um coquetel molotov”. 

O fotógrafo foi agredido pelo policial em campo aberto, na frente de todos, em um momento em que há tempos não havia molotovs sendo arremessados. É preciso começar a se discutir seriamente os critérios que estão sendo usados pela grande mídia para cobrir as manifestações. A distância entre o que vemos acontecer nas ruas com nossos próprios olhos e vemos depois nas telas de TV está sendo em muitos casos abissal. Liberdade de imprensa parte do pressuposto de que o jornalismo serve aos cidadãos e à democracia. Quando esse pacto de lealdade com a democracia é quebrado propositalmente ou por incompetência, é preciso rever muitas coisas a respeito de como a mídia deve ser tratada pela própria legislação.

Agora, falando das próprias forças do Estado: são muito sérias as suspeitas que estão circulando pela internet de que policiais infiltrados teriam arremessado o primeiro molotov. Inclusive existem fotos e vídeos que apontam essa direção. Não é a primeira vez que os P2 são apontados como provocadores do início dos confrontos nas manifestações. Dessa vez, porém, a coisa ficou ainda mais feia, pois policiais foram feridos pelos coquetéis. É necessário que uma séria investigação seja feita e venha a público.

As imagens da PM carioca e da grande mídia saem ainda mais manchadas após esse último protesto. A cidade está cheia de visitantes que participam da Jornada Mundial da Juventude e novos protestos acontecerão antes do Papa deixar o país. A situação é de tensão para o Estado. Do outro lado, os manifestantes sentem que não podem confiar em ninguém: policiais infiltrados por todos os lados, repórteres das mídias alternativas sendo presos para que parem com as transmissões ao vivo e a grande mídia mostrando versões dos eventos que não coincidem com a de ninguém que estava nas ruas acompanhando de perto o que acontecia. Só o tempo vai dizer como essa complexa situação vai se desenrolar.

Mas acima de tudo isso está uma pergunta que ainda não foi, mas precisa ser, respondida:

Cadê o Amarildo?







terça-feira, 23 de julho de 2013

O Leblon acordou assim, se sentindo estranho, de ressaca e meio assustado.


Texto e foto*: Thomás R. P. O.



No meio de todo esse cenário de conflito, sempre tenho pena do ser humano por trás do comerciante que tem sua loja depredada em um protesto. Mesmo supondo que, se tratando de um dono de loja no bairro mais caro do país, tenha seguro e que no final da história seus problemas não serão tão difíceis de serem resolvidos, fico com pena do cara se sentindo invadido, agredido sem entender o porquê. 

E o Leblon acordou assim, se sentindo estranho, de ressaca e meio assustado. A grande mídia disse que os moradores do bairro estavam se sentindo inseguros. Na internet, moradores de outras áreas da cidade responderam “bem vindos ao Rio de Janeiro”. 

E todo esse choque causado pelas bombas de gás e balas de borracha do Choque e pelo temido e tão comentado midiaticamente vandalismo é compreensível. Afinal, até há pouco mais de um mês estava tudo tranquilo e confortável... pros moradores do Leblon, é claro. Fora da utopia consumista que é a Zona Sul, as coisas nunca estiveram muito bem na cidade. Mas no fim, sempre tinha carnaval, novela, futebol e cerveja pra esquecer isso tudo.

Porém parece que, na verdade, nada estava sendo esquecido, tudo só era repetidamente soterrado pelo peso do cotidiano. O descontentamento e a sensação de vazio já existiam, mas eram sempre reprimidos. E reprimir os impulsos nunca funciona de forma definitiva, por isso gastamos muita energia psíquica para manter no inconsciente aquilo que não queremos que venha à superfície de nossa consciência. Pois, para alguns frankfurtianos (que deveriam ser lidos por cada manifestante), a indústria cultural cumpre esse papel interminável, sempre renovado, de reforçar o bloqueio da tomada de consciência da dominação de poucos sobre muitos, ao funcionar como válvula de escape. 

Mas algo aconteceu, algo que não entendemos perfeitamente ainda por estarmos no meio dos próprios acontecimentos. E o fato é que esse algo fez explodir todos os descontentamentos até então sufocados. As pessoas estão nas ruas erguendo faixas, cantando, fugindo da polícia, quebrando a portaria da representante máxima da indústria cultural no país e depredando a loja do comerciante do qual falei no primeiro parágrafo. 

As coisas estão confusas pra todo mundo: governo, manifestantes, policiais e comentaristas de forma geral. E existem diferentes medos circulando por esse ar cheio de gás lacrimogênio: o medo do comerciante de ter sua loja depredada; o medo do dono de bar de ver seus clientes saírem sem pagar após a polícia jogar bombas dentro do estabelecimento; o medo do manifestante de ficar cego devido a um tiro bala de borracha; o medo da mídia alternativa do abuso de autoridade do policial; o medo da grande mídia de ser expulsa pelos que protestam; o medo do povo em relação à volta dos neoliberais ao poder e o medo, que deveria ser de todos, dessa nostalgia que alguns parecem sentir em relação a uma ditadura militar que, além de torturar e matar, multiplicou a desigualdade econômica e afundou o país em uma enorme dívida.

Mas em meio a tanto medo, tem também motivos para esperança. Ver de perto uma nova geração nas ruas, mesmo que ainda meio perdida e confusa, mas tateando caminhos cheia de boas intenções, é um sopro de ar fresco. Ver frases de Bakunin, Marx e Hakim Bey caoticamente misturadas sendo compartilhadas no facebook por garotos que há pouco eram vistos por toda a sociedade como alienados e consumistas, é algo alentador. E mesmo que agora no início poucos tenham lido mais do que frases desencontradas e fragmentos contraditórios, isso aponta uma direção que parecia inimaginável. E lembrando daquele personagem citado por Zizek que de tanto fingir ser comunista para irritar os amigos ricos da esposa, um dia acabou virando um de verdade, me pergunto quem sabe o futuro desses jovens manifestantes? 

Ver alguns deles entrando na loja para colocar manequins nas ruas como se fossem espantalhos de manifestantes e queimar roupas no lugar de roubá-las não deixa de ter uma carga poética. Mais uma vez reforço que sou contra o ataque a lojas e afins, mas uma vez que tenha acontecido, foi interessante ver que não resultou no roubo – o que seria um reforço da lógica fetichista em torno das mercadorias – mas sim em uma demonstração de desprezo àqueles símbolos de status. Aí está a poesia, todos os valores babacas que fizeram o Leblon se tornar o que se tornou em termos de especulação imobiliária naquela noite para aquelas pessoas valiam menos do que nada. O tal trem da história parece estar aceleradamente passando por cima de coisas que eram julgadas tão sólidas e agora se desmancham no ar... 




*A foto que ilustra o artigo foi feita nos protestos do dia 30 de junho na Tijuca.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Protestos de 11 de julho: balas e bombas do Centro a Laranjeiras



Texto, vídeo e fotos: Thomás R. P. de Oliveira


 
A manifestação com muitos trabalhadores de sindicatos seguia pela avenida Rio Branco em direção à Cinelândia quando algo muito estranho aconteceu. Alguns homens chegaram com uma caixa de papelão cheia de coquetéis molotov e disseram que ela era de anarquistas que participavam do protesto. 

Ir à uma manifestação carregando uma enorme caixa de papelão cheia de garrafas de cerveja com gasolina me parece surreal. O que levaria um dos membros do Black Bloc ou de qualquer movimento anarquista, ou esquerdista de forma geral, a cometer uma burrice dessas? Uma caixa de papelão? Vários litros de gasolina? 

Muitos manifestantes ao verem o absurdo da cena acusaram aos gritos os tais homens de serem policiais disfarçados, os cada vez mais famosos P2. Logo começou uma forte discussão e simultaneamente a polícia lançou suas primeiras bombas de gás. Daí em diante, o confronto se instalou. Um carro de som começou a tocar o Hino Nacional enquanto a polícia disparava contra o povo. (Vídeo)

Alguns manifestantes conseguiram fazer a polícia recuar combatendo com escudos improvisados, pedras e fogos de artifício. Mas após se reorganizarem, os policiais avançaram atirando balas de borracha e bombas de gás. Barricadas em chamas foram feitas ao longo da avenida República do Chile, portas de vidro de bancos foram quebradas e a polícia trabalhou ativamente para dispersar os manifestantes (eufemismo para atirar balas de borracha e bombas contra eles).
Outros grupos foram para o Palácio Guanabara, em Laranjeiras, e novos enfrentamentos aconteceram. A Vice estava lá com o fotógrafo Matias Maxx. A matéria pode ser conferida clicando aqui.

Abaixo, fotos que fiz do tumultuo no Centro:










O protesto na final da Copa das Confederação

Começando no meio da tarde de domingo na praça Saens Peña, na Tijuca, a manifestação contou com performances teatrais e mostrou que esse caminho de intervenções artísticas sempre chama a atenção das pessoas que passam pelo local.

Em seguida, a passeata seguiu até a rua São Francisco Xavier. Todas as passagens que levavam ao Maracanã estavam bloqueadas por policias.

Após algum tempo de protestos em frente a um desses cordões de isolamento, as bombas de gás voltaram a explodir. Daí em diante o que se viu foi a violência policial de sempre. A diferença em relação aos protestos do Centro da cidade é que tudo aconteceu em uma rua residencial e muitos moradores filmavam a ação dos PMs e gritavam coisas como "vocês não estão na ditadura" e "covardes".

O resultado: manifestantes pacíficos agredidos, bombas de gás lançadas contra apartamentos e todos intoxicados pelo gás lacrimogênio. Ah, e o Brasil foi campeão, embora ninguém que tenha protestado pereça encontrar motivos para comemorar isso.

Algumas fotos e um vídeo do protesto do dia 30 de junho, durante a final da Copa das Confederações:


















Um protesto carioca cheio de música




Texto, vídeos e fotos: Thomás R. P. de Oliveira





Uma semana após o protesto que parou o Rio de Janeiro e reuniu por volta de 1 milhão de pessoas, um novo encontro foi marcado no dia 27 de junho, às quatro da tarde, na Candelária. Dessa vez, no entanto, a divulgação via internet não foi tão forte. A maior preocupação de todos parecia ser evitar infiltrações direitistas e prevenir que ataques a pessoas com bandeiras ou camisetas de partidos voltassem a acontecer.

Outro motivo para tensão vinha das duras lembranças da violenta repressão policial na quinta-feira da semana passada. Ninguém sabia o que esperar após os últimos confrontos. A presença policial foi pesada. Mais de cinco mil manifestantes dividiram espaço nas ruas com 1400 policiais. 



Após mais de uma hora de concentração, os manifestantes saíram da Candelária em direção à Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro (Fetranspor). Aos gritos de “Fora Cabral” e reivindicando passe livre na cidade e melhorias em saúde e educação, os manifestantes chegaram à Cinelândia, que fica no meio do percurso. Lá, houve uma divisão entre dois grupos que seguiam carros de som diferentes. 

A indecisão fez com que muitos se espalhassem pela praça e aproveitassem para conversar, descansar e até mesmo cantar. O cenário por algum tempo ganhou ares de ocupação e não de passeata. Diferentes grupos se formavam e curiosos circulavam por eles. Feministas, punks, anarquistas, militantes de partidos de esquerda, defensores dos direitos dos homossexuais e funkeiros ocuparam, pacífica e alegremente, o ambiente.



Aos poucos, a manifestação foi se reorganizando e seguiu para a Fetransport. A Alerj, que fica lá em frente e foi palco de um violento confronto no último dia 17, estava completamente isolada por um cordão de policiais com escudos. Aliás, em qualquer direção que se olhasse havia grandes concentrações de PMs. Eles praticamente cercaram a manifestação durante todo o trajeto. 

Da lateral da Alerj, de repente, surgiu um senhor de cabelos brancos em uma moto. Buzinando o tempo todo olhava para os policiais e, rindo, gritava: “Eu assaltava bancos! Vejam só, policiais, que coisa curiosa, eu assaltava bancos!” E novamente buzinava e gargalhava. Os policiais se entreolhavam curiosos e um tanto quanto atônitos. Após mais uns dois minutos de confissões sobre seu improvável passado como assaltante, o senhor percebeu que não receberia voz de prisão e foi embora.

Nenhum confronto aconteceu. Volta e meia, alguma bomba estourava entre os manifestantes ou fogos eram lançados para o ar e era nítido o susto que os mais distraídos levavam, inclusive alguns policiais. Mas as mais de cinco mil pessoas protestaram pacificamente contra o Governador e os empresários do setor de transporte público e, dando a volta na região, retornaram para a Cinelândia. 




A Polícia Militar estava em todas as saídas da praça e a sensação era de que a qualquer momento algo podia acontecer. Não apenas são muito frescas as lembranças da violência da ação dos policiais no último protesto, como estão na mente de todos as recentes mortes no Complexo da Maré, durante operação do Bope. 

Moradores da Maré participaram do protesto e acrescentaram a fundamental mensagem de que, por mais que devamos nos revoltar com a violência policial cometida contra manifestantes no Centro da cidade, é nas favelas que o verdadeiro terror se faz presente. E as recentes mortes não permitiam a ninguém ignorar esse fato. Pessoas se alternaram em megafones protestando contra diferentes alvos, sendo que a polícia era um dos mais constantes. Os PMs apenas assistiam a tudo. 

Com o passar do tempo, muitos manifestantes foram embora e o clima foi ficando mais leve. Um rapaz passou apertando as mãos de policiais e um outro decidiu ir mais longe e abordou uma loira fardada, dizendo que gostaria que trocassem todos os policiais por  mulheres lindas como ela. A PM sorriu constrangida e seus colegas avisaram, também aos risos, que ela era casada. Depois de tudo o que aconteceu nos últimos enfrentamentos entre polícia e manifestantes, essas duas cenas foram no mínimo estranhas e, sem dúvida, não representam o sentimento geral. Mas aconteceram e mostram a complexidade da situação.




A Cinelândia readquiriu um clima de ocupação política e cultural. Grupos de diferentes tamanhos e características se formavam e dissolviam, vendedores de pipoca, balas, cerveja e refrigerante circulavam em busca de clientes, amigos se reencontravam e se abraçavam e eu segui até uma roda com pessoas cantando funk ao som de um berimbau. Assim, me despedi de mais uma noite de protestos ouvindo anarcofunk - que obviamente mistura o ritmo do funk carioca com letras de inspiração anarquista. 

Voltei para casa sem o gosto do gás lacrimogênio na garganta, dessa vez. Enquanto caminhava, fui pensando em como se desenrolará essa tensa relação entre manifestantes e policiais no próximo protesto e sem querer, quando percebi, estava cantarolando os versos dos funkeiros anarquistas: “Começa com as criancinhas/ Bonecas sempre loirinhas/ Bonecas sempre branquinhas”; “Saúde não se vende/ Loucura não se prende / Quem tá doente é o sistema social” e “Hoje será o seu fim, os vagabundos estão aqui”...