Texto, fotos e vídeos: Thomás R. P. O.
fotos.trpo@gmail.com
Na segunda-feira, 22 de
julho, o Papa argentino teve uma recepção bem brasileira. Seu motorista se
perdeu no trânsito e acabou preso em um enorme congestionamento nas ruas do
Centro da cidade. Enquanto isso, não muito distante, no Largo do Machado, uma
multidão começava a se formar. Entre os manifestantes, partidos de esquerda,
movimentos estudantis, feministas e uma forte participação de grupos que lutam
contra a homofobia. O clima seria leve e tranquilo nesse final de tarde se não
fosse a circulação de muitos P2 na área. Um, inclusive, ameaçou tomar o celular de uma
garota que o estava filmando.
Quando as pessoas começaram a
andar em direção ao Palácio Guanabara, local da recepção oficial do líder da
igreja católica, a presença da cavalaria no caminho aumentou a tensão. Neste
momento, algumas pessoas com bandeiras de partidos resolveram que ficariam no Largo
do Machado e foram deixadas para trás aos gritos de “pelegos”.
Na rua Pinheiro Machado, poucos
metros atrás de uma cerca de metal colocada no local, um enorme paredão humano
formado por uma multidão fardada impedia qualquer possibilidade de maior
aproximação da sede do Governo do Estado.
A já tradicional queima do boneco
do Sérgio Cabral, dessa vez amarrado a um poste, foi aplaudida. E tudo rolou
tranquilamente até a saída do Papa de helicóptero. Algumas grades que separavam as pessoas dos policiais foram
jogadas ao chão. Uma clareira se abriu e manifestantes com os braços
abertos pediam calma. Quase imediatamente, por cima da cabeça deles, voou um
coquetel molotov que explodiu em frente da polícia. Em questão de instantes,
bombas de efeito moral foram lançadas contra a multidão e novos coquetéis caíram
sobre os PMs. (
VÍDEO)
O “caminhão pipa” da polícia saiu
jogando jatos de água para apagar as chamas e carros cheios de policiais,
seguidos pela tropa de choque, avançaram na direção dos manifestantes que
fugiam. Rapidamente, um policial elegeu um culpado, o acertou com um tiro de
pistola de choque e continuou eletrocutando o homem caído no chão. Vários
policiais carregaram o manifestante desacordado e ao mesmo tempo tentavam afastar
a imprensa. O fotógrafo da France Presse, Yasuyoshi Chiba,
empurrado, ergueu os braços mostrando a câmera e foi agredido violentamente na
cabeça com um cassetete.

Ajoelhado
na calçada, o fotógrafo que sangrava abundantemente foi atendido por
manifestantes vestidos com jalecos brancos e foi conduzido a um hospital.
Enquanto isso, o homem eletrocutado acordava e recebia voz de prisão sob a
acusação de ter arremessado o primeiro molotov. Dois integrantes da Mídia Ninja
também foram presos (segundo a polícia, por incitarem a violência). Os
manifestantes decidiram seguir para a 9ºDP, no Catete, para exigir a libertação
dos presos.
Após a
manifestação, cheguei em casa e enquanto baixava as fotos no computador, liguei
a TV para buscar qualquer informação a que eu não tivesse tido acesso, justamente
por estar no meio dos acontecimentos. Para a minha surpresa - ok nem tanta
surpresa assim – uma grande emissora afirmava que “um fotógrafo de uma agência
internacional havia sido ferido na cabeça por um coquetel molotov”.
O
fotógrafo foi agredido pelo policial em campo aberto, na frente de todos, em um
momento em que há tempos não havia molotovs sendo arremessados. É preciso
começar a se discutir seriamente os critérios que estão sendo usados pela grande
mídia para cobrir as manifestações. A distância entre o que vemos acontecer nas
ruas com nossos próprios olhos e vemos depois nas telas de TV está sendo em
muitos casos abissal. Liberdade de imprensa parte do pressuposto de que o
jornalismo serve aos cidadãos e à democracia. Quando esse pacto de lealdade com
a democracia é quebrado propositalmente ou por incompetência, é preciso rever
muitas coisas a respeito de como a mídia deve ser tratada pela própria legislação.
Agora,
falando das próprias forças do Estado: são muito sérias as suspeitas que estão
circulando pela internet de que policiais infiltrados teriam arremessado o
primeiro molotov. Inclusive existem fotos e vídeos que apontam essa direção.
Não é a primeira vez que os P2 são apontados como provocadores do início dos
confrontos nas manifestações. Dessa vez, porém, a coisa ficou ainda mais feia,
pois policiais foram feridos pelos coquetéis. É necessário que uma séria investigação seja feita e venha a público.
As imagens
da PM carioca e da grande mídia saem ainda mais manchadas após esse último
protesto. A cidade está cheia de visitantes que participam da Jornada Mundial
da Juventude e novos protestos acontecerão antes do Papa deixar o país. A
situação é de tensão para o Estado. Do outro lado, os manifestantes sentem que
não podem confiar em ninguém: policiais infiltrados por todos os lados,
repórteres das mídias alternativas sendo presos para que parem com as
transmissões ao vivo e a grande mídia mostrando versões dos eventos que não
coincidem com a de ninguém que estava nas ruas acompanhando de perto o que
acontecia. Só o tempo vai dizer como essa complexa situação vai se desenrolar.
Mas acima
de tudo isso está uma pergunta que ainda não foi, mas precisa ser, respondida:
Cadê o
Amarildo?